Boletins Informativos
Nº 007/2003
DA RESPONSABILIDADE
(Artur Capdevilla – Num artigo em “La Prensa”)
É alarmante esse ar de “não me importa” que freqüentemente surpreendemos entre os jovens e mesmo entre velhos.
Mas existe, acaso, quem procure fazer alguma coisa para que nasça e se desenvolva em cada um o sentimento da responsabilidade? Parece-me que não, e me parece, sim, que muitos há, que ainda tentam desfazer o pouquíssimo que se intenta levar a efeito. É lamentável, mas geralmente acontece que os pais são os primeiros a empurrar os filhos para esse sistema de subterfúgio e capciosidade. Logo adiante, o espírito cairá em nova armadilha. Partidos, grupos, bandeiras os chamarão para a vida de rebanho onde a individualidade se dilui; onde a responsabilidade, se existe, é coletiva, isto é, repartida, fracionada até a desagregação. A responsabilidade, deste modo, está em toda parte, mas em lugar nenhum para a suprema comodidade de todos...
Ao contrário do que se faz, seria preciso incitar e incitarmo-nos continuadamente à vida de responsabilidade consciente e pessoal até que se fizesse carne de nossa carne, a convicção de que o problema da conduta é assunto sério e íntimo, no qual não cabem nem delegações, nem maioria de sufrágios, já que cada indivíduo terá que responder por si mesmo.
E tem que responder. Melhor dizendo, terá que saber responder. Os homens nos farão urgentes perguntas em busca do porquê de nossos atos. Nós mesmos nos faremos prementes perguntas, vez ou outra à procura do porquê. E a resposta num e outro caso terá que ser clara como o cristal; não um cristal simplesmente translúcido, mas como se fora um vidro de aumento; resposta que junte à sua transparência a virtude de ser grande e conseguir coadunar as razões, e a qual somente se consegue quando os atos em questão encontrarem sua causa e fundamento nas coisas mais elevadas, melhores e mais puras...
Ter sempre presente esse conceito de responsabilidade faz de que por si possa alguém prestar contas ao destino. Exige ademais, uma constante meditação sobre os atos, uma permanente posição de exame ante a conduta. Deixemos de viver como nos sonhos; deixemos de ser, no possível, joguetes de pesadelo e agentes da fatalidade. Pesemos nossos atos, meçamos nossas palavras, revisemos nossos juízos, consideremos atentamente nossos pensamentos e limpemos nossa vontade; acrisolemos nossos corações; preparemo-nos, em suma, para o forte clima da responsabilidade. Ao final, desejamos saber com certeza quem somos: podemos contar com nós mesmos...
Acaso os feitos do homem carecem de virtualidade?
Acaso o homem escreve na água? São, acaso, as ações do homem como fumaça no ar? Acaso nos esquecemos dos acontecimentos de que fomos testemunhas? Esquece-se, acaso, o universo dos sucessos que presenciou?
Por pouco que se medite se compreenderá que habitamos um planeta no qual se gravam indelevelmente a marca de nossos passos. “Tu passas...” cantam alguns poetas frívolos, dirigindo-se ao homem. “Tu ficas...”, deveriam cantar.
Verdadeiramente, “tu ficas”, deveriam cantar, e também acrescentar: tu ficas, sempre; ficas em teus filhos, em tua obra, ficas até nos vazios que vais deixando quando te negas à ação. Tu ficas, sempre. Muito fundo é o rastro do homem.
Percebe como estão em ti, cidadão de hoje, os sinais visíveis de teus progenitores mais remotos; nota como por teu intermédio hoje eles respondem por todos os seus atos, por todos os seus vícios e por todas as suas virtudes. Que melhor nome se daria a este mundo que o do MUNDO DA RESPONSABILIDADE?
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