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Nº 036/2004

"Cultivo da Natureza Moral".

(João R. Mott - 1865 - Prêmio Nobel da Paz)

Quando de uma de minhas visitas à Índia, interessou-me o caso de um faquir hindu que levava o braço direito sempre erguido. Não o podia baixar. como se o tivesse mantido durante muito tempo nessa posição os músculos se lhe haviam paralisado. Para cumprir um juramento ou penitenciar-se, colocara o braço naquela posição e agora, mesmo que o quisesse, não mais o podia mover; a falta de uso lho havia atrofiado.

Certa feita, fui ao Japão como Delegado à Convenção da Federação Cristã Mundial de Estudantes. Durante essa magna assembléia de estudantes oriundos de trinta nações, fomos recebidos na residência do Conde Okuma, que fora primeiro Ministro do Japão. Muitas atrações nos ofereceram os magníficos jardins da morada do antigo ministro, mas nenhuma delas tanto chamou minha atenção quanto a coleção de árvores anãs. Foi-nos mostrado, por exemplo, uma arvorezinha que não teria mais que uns poucos centímetros de altura e que a despeito do ínfimo tamanho tinha, segundo nos afirmaram, a idade de sessenta anos. Outras pequenas árvores tinham cem anos. Conservaram-se anãs por um engenhoso processo que os japoneses conhecem.

No estado de Kentucky, Estados Unidos, existem cavernas e passagens subterrâneas conhecidas pelo nome de Mammoth Caves. Visitei-as várias vezes. São vastíssimas galerias, e por elas um indivíduo pode caminhar durante vários dias sem que as conheça em sua totalidade. Nessas profundidades existem rios e lagos em cujas águas vivem peixes e crustáceos. Estes são providos de pequenos orifícios semelhantes a olhos, e os quais, depois de examinados, se mostram sem nervo ótico. Têm olhos, mas não vêem. Em virtude das densas trevas dessas regiões, perderam esses peixes e crustáceos o uso da visão.

Poderiam multiplicar-se os exemplos, que nos mostram como o uso continuado de um órgão aumenta sua eficácia, e como o desuso tende a privá-lo totalmente de suas funções. Essa lei, que vemos exercer-se de modo tão inflexível no mundo físico, também atua na natureza moral e espiritual do homem. Não somente o uso mal orientado ou o abuso das faculdades morais e espirituais provoca a destruição delas mesmas, como também o desuso total ou o abandono. Vale dizer, existe no mundo moral e espiritual a mesma possibilidade de atrofia que se verifica no mundo físico, a destruição lenta mas inexorável das capacidades morais e espirituais como resultante da falta de uso das mesmas. O descuido ou abandono no que diz respeito ao desenvolvimento desse lado de nossa natureza, pode brindar-nos com resultados tão funestos como os advindos do abuso ou da violação daquilo que as constitui. Lembra-me agora que o conceito comum é outro. Acredita-se geralmente que para perder-se um homem é necessário que ele se entregue total e continuadamente ao mal; que deve abandonar tudo o que é bom e nobre na vida para dedicar-se sem freio nem medida ao cultivo do mal. Mas, não. Um homem pode perder-se por causa simplesmente, de sua inércia ou indiferença.

É bem possível que o leitor exclame nesta altura: "Confesso que tenho descuidado ou cuidado mal da cultura de minha natureza moral e, por isso estou sofrendo atrofia dessas faculdades. Com toda a honradez reconheço que esse maléfico processo se está processando em mim com todos os seus inevitáveis resultados - sensibilidades adormecidas, percepções entorpecidas, vontade paralisada. Não tem o autor algum conselho que acender dentro em mim a esperança de uma reação favorável"? E eu lhe respondo: há esperança. Existem dois conceitos sobre a formação do caráter, que se situam em pólos opostos e que a meu ver, são errôneos. Um deles opina que o jovem o que queira, semear cizânia, viver em baixo nível de vida, e, depois, quando sinta vontade poderá voltar atrás e sem esforço mudar de vida. Essa suposição tenta o homem a viver temerária e descuidadosamente e enche a senda da existência com restos de muitas vidas que naufragaram. O outro conceito ensina que depois que tivermos feito tudo quanto desejarmos, nosso caráter se fixa e não mais se muda. Essa suposição desespera. Em virtude dos muitos anos que venho dedicando à juventude universitária, posso crer que minhas palavras tenham algum peso e possam ser acatadas. Se assim suceder, poderei considerar-me feliz, porque estas são as minhas palavras: ainda não encontrei um só estudante ao qual se pudesse dizer: para você não resta esperança. No fundo de todo coração há cordas que não se enferrujaram ao contato da perversidade e que sob o influxo de sentimentos mais nobres podem novamente vibrar em harmonia com o bem.

À juventude que leia este testemunho de minha fé posso dizer: dai graças a Deus porque sois jovens. Há uma passagem na bíblia que se harmoniza com as conquistas da ciência. Está no Eclesiastes: "Recorda-te do Criador nos dias de tua juventude, antes que te cheguem os dias maus, os anos em que dirás: não tenho contentamento neles". Ou seja, antes que te cheguem os dias nos quais terás que dizer: "Estou atacado de atrofia; não tenho interesse em tais coisas; nada existe dentro de mim que me desperte para elas; não me interessam.

 

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