|
Boletins Informativos
Nº 029/2004
“A Luta pela Verdade"
(Rodolfo Eucken)
O que, realmente tem poder? O que decide na luta pela verdade? Não são os simples argumentos e as demonstrações; todas as controvérsias entre convicções divergentes nos mostram com irrefutabilidade que uns e outros são inóquos; poderia ser de outro modo no campo mais extenso da argumentação, encarada com o choque dos espíritos em serviço do pensamento? Cada qual refuta os argumentos dos outros em sua própria língua e modo particular de pensar e dessa maneira os transformam completamente; não existe, destarte, mais que um continuado monólogo; raramente se produz um diálogo.
Realmente o que empresta força persuasiva aos argumentos não é o seu poder lógico e dialético, mas o conteúdo e o vigor da vida do espírito, das concentrações espirituais, das energias vitais que lhes dão seiva. Assim, em toda discussão sobre questões de princípio, cada qual dos participantes não defende, no fundo, senão a si mesmo e a sua própria natureza; esse instinto de conservação espiritual é a única fonte que comunica força, ardor e paixão ao movimento intelectual. Explicação aceitável e possibilidade de acordo somente são possíveis quando existe uma afinidade de naturezas no preparo de um terreno comum. Aristóteles e Santo Agostinho, Santo Tomás e Voltaire, todos eles excelentes lógicos, porventura conseguiram persuadir-se mutuamente por mais que viessem a discutir? Os indivíduos de espírito superficial e instável são os únicos que se deixam convencer por meros argumentos; reduzindo a considerações puramente intelectuais, nunca poderia o homem desfrutar de seu próprio ser com segurança, porque viveria no constante temor de que um mais poderoso e sutil dialeta o vencesse e obrigasse a adotar uma opinião oposta.
Paralelamente, na vida histórica, não são as representações intelectuais isoladas, as idéias soltas, senão muito ao contrário, as energias espirituais, as concentrações de vida, que dominam os espíritos e inflamam as paixões. Sectários conscientes ou inconscientes da filosofia hegeliana nos dizem freqüentemente que as idéias engendram suas conseqüências com uma necessidade mais forte do que tudo, e que nada sacode mais violentamente e nem mais imperiosamente impele para a frente que uma contradição lógica. Na verdade, conseqüências e contradições podem atrair irresistivelmente o homem; mas não é pela lógica, simplesmente. Há conseqüências que podem ser imediatas sem que se lhas hajam tirado, há contradições que podem ser palpáveis sem que alguém se tenha dado conta. Para isso é preciso que penetrem os problemas no instinto de conservação espiritual, que através deles se desenvolvam energias vitais e se constitua uma esfera de existência espiritual; unicamente esta apropriação, esta entrada do trabalho intelectual na vida pessoal, faz inelutáveis as conseqüências e intoleráveis as contradições; sobretudo o grau de unificação, a força da síntese da vida, é o que dá à lógica um poder que acredita com freqüência exercer por sua própria força. O fato de suportar tranqüilamente sistemas de idéias contraditórios revela sempre menor concentração da vida, e da mesma forma que esse fato é característico do pensamento infantil, também caracteriza o nível médio da humanidade frente a exigências de uma espiritualidade autônoma. A falta de lógica não é a causa, mas o sintoma dessa falta de concentração.
|