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Boletins Informativos
Nº 024/2004
"O Homem Feliz”
((Bertrand Russel – Filósofo e matemático inglês – 1872)
Muitos desgraçados acreditam que seu infortúnio tem origem complicadas e muito intelectuais. Não creio que sejam estas as causas da felicidade nem da infelicidade; creio que não são mais do que sintomas. O infeliz tende a adotar um credo de desgraça e, o feliz um credo feliz; cada um atribui sua felicidade ou desgraça a suas idéias , quando o que sucede é justamente o oposto.
Existem coisas indispensáveis para a maior parte dos homens; não são coisas simples: a casa, a comida, a saúde, o amor, o êxito no próprio trabalho e o respeito dos seus.
Para algumas pessoas é, da mesma forma, essencial a paternidade. Quando estas coisas faltam, somente homens excepcionais podem ser felizes; mas quando se têm ou podem obter-se mediante esforço bem dirigido, aquele que continua sendo infeliz tem alguma tara psicológica que, sendo muito grave, pode necessitar os serviços de um psiquiatra; mas que, em casos correntes, pode curar-se por si mesmo, desde que coloque as coisas no lugar adequado.
Quando as circunstâncias exteriores não são definitivamente adversas, deveria o homem ser feliz sempre que suas paixões se dirigissem para fora, não para dentro.
Nosso esforço deveria, pois, tender, tanto na educação como nas relações sociais, a evitar as paixões egocêntricas e adquirir afeições e interesses, que impeçam nosso pensamento de encerrar-se perpetuamente dentro de si mesmo.
Os homens não são felizes numa prisão, e as paixões encerradas dentro em nós mesmos, constituem a pior das prisões. As paixões mais corriqueiras são o medo, a inveja, o sentimento de pecado, o desprezo de si mesmo e a própria admiração. Em todas elas nossos desejos são egocêntricos; não há interesse autêntico pelo mundo exterior, mas tão somente a preocupação de que possa prejudicar-nos ou favoreça nosso eu.
O medo é a razão principal de tanto recearem os homens admitir fatos e estarem tão dispostos a abrigar-se com a roupagem quente da ficção. Mas os espinhos rasgam o traje e o ar frio penetra pelos rasgões, e aquele que se acostumou a seu calor sofre muito mais pelo ar frio do que quem se aventurou a ele desde o princípio. Ademais, os que procuram enganar-se a si próprios, geralmente sabem, no fundo, o que estão fazendo, e vivem num estado de temor constante de qualquer acontecimento funesto que lhes possa suceder.
Um dos grandes inconvenientes das paixões egocêntricas é que oferecem poucas variedades à vida. Aquele que não ama senão a si mesmo, não pode, é verdade, ser acusado de promiscuidade em seus feitos; mas, enfim, está condenado a um insuportável aborrecimento pela invariável monotonia do objeto de seu afeto. O que sofre do sentimento do pecado está afetado de uma forma particular do amor-próprio. Em toda a vastidão do Universo, a única coisa que lhe parece importante é o fato de que ele próprio deveria ser virtuoso. Um dos graves defeitos de certas formas de religião tradicional, é que fomentam esta concentração dentro de si mesmo.
O homem feliz é aquele que vive objetivamente, o que tem afeições livres e largo interesse nas coisas, aquele que assegura sua felicidade graças a esses afetos e interesses, e pelo fato de que hão de convertê-los, por sua vez, em objeto de interesse e carinho para muitas pessoas.
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