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Boletins Informativos
Nº 019/2003
“As Aflições da Vida”
(João Lubbock – Astrônomo inglês – 1803-1865)
No transcurso de nossa vida muitas e variadas inquietações nos acometem. Algumas são verdadeiras penas, ocasionadas por nós mesmos; mas outras, e de nenhum modo mais numerosas, são simplesmente espectros do pesar: se as enfrentamos com galhardia e ânimo seguro, descobrimos que não têm consistência nem tampouco realidade; são meras criações de nossa imaginação mórbida ou exacerbada. É verdade hoje, como ao tempo de Davi, que “uma sombra vã atormenta o homem”.
Alguns de nossos pesares são em verdade danosos, mas não reais; outros são reais, mas não funestos.
“Sem embargo, a mente se precipita em insondáveis abismos quando a agitam os pesares da humanidade. E se então esquece o próprio engenho, que é eterno júbilo, e desvia-se para as obscuridades exteriores, que são as incertezas deste mundo, não conhecerá mais que aflições”. (Boécio)
“Atenas, disse Epicteto, é um local excelente, porém mais excelente é a felicidade de sentir-se a gente livre de paixões, isento de inquietudes”.
Deveríamos fazer o possível para nos mantermos nessa
“... bendita calma em que a opressão do mistério,
a dura e molesta carga deste confuso mundo é descarregada”. (Woodsworth)
Assim não temeremos “o exílio de Aristides nem a prisão de Anaxágoras, a pobreza de Sócrates, nem a condenação de Fócion; mas consideraremos a virtude, ante provas tais, digna de nosso amor”. (Plutarco)
Estaríamos, então, livres das circunstâncias exteriores porque:
“Os muros não constituem prisão
nem os ferros cadeias.
As mentes serenas e puras os tomam como se fossem ermidas.
Se levo em meu amor liberdade
E na alma tenho consolo
Somente os anjos na imensidão
Gozam de tanta calma”. (Lovelace)
O mesmo nas palavras de Shakespeare:
“Qualquer lugar sob os céus
é para o sábio feliz fundeadouro e seguro porto”.
A felicidade depende muito mais do que existe em nosso interior do que no exterior. Disse Hamlet que o mundo “é uma vasta prisão, com numerosos limites, guardas e calabouços; e que a Dinamarca é o pior destes últimos”.
Quando Rosencratz dele discorda, replica sabiamente: “Concordo que não o seja para ti, porque nada há de bom ou de mau se o pensamento não o causa; para mim é uma prisão”.
“Tudo é como se julga; diz Marco Aurélio; aquilo que não mais causa mal a um homem, como pode fazer pior a sua vida? Mas é certo que morte e vida, honra e desonra, dor e prazer, ocorrem a bons e a maus, e não nos faz melhores nem piores”.
“ Os maiores males, observa Jeremias Taylor, estão dentro em nós mesmos; e dentro em nós devemos buscar nosso maior bem”.
“A mente, diz Milton, está em seu verdadeiro lugar, e nela se pode fazer de um céu um inferno, bem assim de um inferno um céu”.
Em verdade, Milton com a sua cegueira, gozou mais visões de extrema beleza, e Bethoven ouviu , em sua surdez, mais música celestial que muitos de nós, que não podemos afagar nem a mais ligeira esperança de as ver e sentir.
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